Commodities agrícolas:
um balanço da produção e estoques


Décio Luiz Gazzoni
O autor é Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja.
Homepage: www.gazzoni.pop.com.br



Com a safra de grãos americana chegando ao fim, é possível fazer um balanço da situação atual e arriscar alguns prognósticos sobre as perspectivas da safra de verão brasileira. Como regra geral, os últimos números divulgados pelo USDA tiveram o poder de derrubar as cotações. As dificuldades de colheita do trigo argentino e de plantio da safra de verão no Rio Grande do Sul, a possibilidade de parte dos salários de brasileiros serem deslocados de bens de maior valor para alimentos, por influência da alta de juros, contrabalançaram as cotações internas e influenciaram o mercado internacional.

Produção estável, estoque crescente
O total de grãos considerados nobres no comércio internacional deve atingir 1.867 milhões de toneladas, valor igual ao do ano anterior. Os estoques devem crescer entre 1 e 2%, na estimativa dos analistas do USDA. No entanto, seria interessante reavaliar esta posição quando a poeira da atual crise financeira internacional assentar, pois haverá movimentos de importadores e exportadores, alterações espaciais de estoque, mudança de posição em função da elevação de juros em diversos países. O El Niño tem sua máxima atividade prevista para a passagem de ano, o que pode alterar as previsões efetuadas para o Hemisfério Sul.

Açúcar - Nosso principal problema ainda é o famigerado sistema de cotas, mas os subsídios europeus também continuam deturpando este mercado. A produção americana deve chegar a 7 milhões de toneladas (4 milhões de açúcar de beterraba), superior à última estimativa, o que deve esfriar os preços no próximo período..

Trigo - A produção mundial de trigo foi estimada para maior, rompendo o patamar de 600 milhões de toneladas. Como o consumo não cresceu na mesma proporção, eleva-se o estoque mundial para 128 milhões de toneladas, estimando-se o estoque final entre 17 e 18 milhões de toneladas, traçando um quadro de estabilidade ou de leve queda de preços..

Milho - Os EUA continuam produzindo altas safras de milho, estimando-se uma colheita de 237 milhões de toneladas, porém a nível mundial deverá haver uma redução de 3,5% na produção. Apesar da seca na China, a colheita deverá ser superior a 100 milhões de toneladas. No entanto, o mercado já havia se ajustado a estes valores e à redução superior a 20% no estoque de passagem. Os EUA deverão colocar quase 50 milhões de toneladas no mercado internacional, enquanto a China colocará quase 5% de sua produção neste mercado.

Soja - Continua sendo a vedete das commodities. Os EUA colhem uma safra recorde (74,5 milhões de ton), com embarques somando 26,6 milhões de ton, quase a previsão da produção brasileira (29 milhões de ton) ou o dobro da produção da Argentina. Apesar do aumento sensacional na produção mundial, estimado em 14% e atingindo 150 milhões de toneladas, a demanda super-aquecida deverá derrubar os estoques mundiais em mais de 30%, mantendo acesas as cotações do produto. Devido ao aumento no processamento, os estoques de óleo e farelo permanecerão estáveis. Bola preta para quem fez previsões pessimistas para a soja brasileira, em 1994. Aliás, neste 3 anos, de acordo com os agricultores, tem sido a soja a salvação da lavoura!

Arroz - Tanto a produção quanto os estoques mundias de arroz permanecem estáveis, com variações estimadas entre 1 e 2%. Com o mercado monótono e previsível, os preços devem permanecer estáveis.

Algodão
- A produção mundial de algodão está estimada em 90 milhões de fardos, muito próximo do valor de 89 milhões da safra anterior. O consumo também permanece estável, fazendo com que os estoques se estabilizem no mesmo valor de 2,30 milhões de fardos. Preços ajustados, perspectiva de estabilidade.


-- B O X --


Importação de carne
Em 1998, quem quiser exportar carne bovina (ou derivados) para a Europa, terá que se sujeitar às novas regras. Entre outras, será exigido um rótulo, identificando o país de origem do animal, o país onde foi feita a engorda e também as características fisiológicas do animal. O Dr. Ênio Marques, Secretário da SDA/MA reuniu-se com representantes da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne. A idéia é evitar problemas para a colocação da carne brasileira. Estuda-se um sistema de etiquetas, que identifique o nome do frigorífico exportador, o país de origem, data de abate, sexo e idade das reses.

Fazendeiro de emas?
É, o mercado já havia criado o fazendeiro de jacaré. Agora chegou a vez da avestruz e da ema. Carne de primeira, lembra o filé mignon, com demanda crescente no mercado internacional, vale US$20,00 ao quilo nos EUA. No Brasil, artigo de luxo, vale até R$60,00, quando é encontrada! Uma peça de couro pode valer US$600,00, a pluma chega a US$100,00 ao quilo. É uma boa aposta para o próximo milênio.

Leilão da Lagoa da Serra
Retirada do patrimônio do Bamerindus e em poder do Banco Central desde abril, a empresa de inseminação artificial com 25 anos de atuação no mercado, vai a leilão no próximo mês. Com faturamento previsto para o ano em US$11 milhões, fruto da venda de 1 milhão de doses de sêmen, deverá estar disponível para quem tiver um cheque estimado em R$5 milhões.

Beleza no campo
Primeiro foi o MST que colocou suas musas no ar. Agora o é o "MCT" (Mulheres com Terra) que contra-ataca. A principal entrevista da revista A Granja de Novembro é com Carmem Hauschildt, com Fazenda em Catanduvas e Laranjeiras do Sul. Loira e bonita, a artista plástica de 47 anos assumiu a administração das fazendas quando seu marido, engenheiro agrônomo, faleceu vítima de um ataque de enxame de abelhas. Para conferir.