É possível uma globalização humanizada?

Décio Luiz Gazzoni
O autor é Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja.
Homepage: www.gazzoni.pop.com.br



Parece que encontramos na globalização a mãe de todos os males. Aos poucos os brasileiros vão conhecendo os efeitos da globalização dos mercados. Existe o bônus, representado pelo acesso a automóveis importados, a inexistência de diferencial de tempo entre os lançamentos da indústria de informática nos países centrais e no Brasil. O fosso tecnológico diminuiu, as informações correm céleres e a notícia nos chega em tempo real. Os jovens de todas as partes do mundo ouvem as mesmas bandas de rock, vestem as mesmas T-shirts, tem os mesmos ídolos. A Internet se encarregou de aproximar as pessoas e quebrar barreiras antes impensadas, a integração dos sistemas de comunicação permitirá, brevemente, o acesso a um telefone celular mundial.

O preço da globalização
Mas existe a face cruel, o ônus. A entronização da competitividade como passaporte para a globalização, está exigindo um redimensionamento das atividades econômicas. Ninguém pode antever onde desembocará o processo, quais serão as etapas a cumprir, por ser dinâmico. Cada avanço aponta novos caminhos, novas alternativas, novas necessidades e novos desafios. Sempre buscando aquele centavo a mais de competitividade, que nunca é atingido, porque a concorrência selvagem se encarrega de romper barreiras a cada dia. É nesta busca desenfreada de competitividade que encontramos os mortos e feridos de uma batalha que é tão inevitável quanto a morte, posto que ninguém, unilateralmente, conferiu tamanha importância à competitividade, a ponto de possuir poderes para questioná-la. Foi uma eleição do mercado, que estabeleceu regras para o novo ambiente, cujas alternativas são adaptar a elas, ou ficar à margem deste mercado.

Quais são as conseqüências funestas?
A Europa enfrenta os mais altos índices de desemprego de toda a História. De acordo com a OIT, existe mais de 1 bilhão de desempregados no mundo. Economias sólidas como a da Alemanha sofrem abalos pela falta de oportunidades de trabalho e renda. Os mesmos questionamentos levaram à derrubada do parlamento francês e sua substituição por outra linha política - que promete exatamente o que a derrotada havia prometido há quatro anos: pleno emprego. Na busca de recomposição econômica, os orçamentos ficaram pequenos para tantas demandas, obrigando a uma proposta de revisão do wellfare state, de enorme conteúdo de impopularidade. No bojo da proposta dos países da Europa, destacam-se as reformas previdenciárias, as alterações no sistema de atendimento médico e a eliminação dos subsídios agrícolas.

Os efeitos no Brasil
A imprensa noticia que o Banco do Brasil teria eliminado 40% de seu quadro de pessoal, a Votorantin despedido 20.000 empregados. Outros bancos sucumbiram na caminhada, incapazes de adaptar-se a um novo ambiente, onde prima a competitividade natural e não a fraude ou o escamoteamento inflacionário. Industriais e produtores queixam-se da feroz competição dos produtos importados, porém sabedores que não há mais espaço para protecionismos em um mundo globalizado.

Globalização X MST
Na área agrícola, percebe-se dois dos sub-produtos mais desumanos de um mercado globalizado: por um lado produtores tradicionais não conseguem se adaptar à competição selvagem, às demandas de elevada tecnologia, à necessidade de capital e de ampliação da extensão de terra, e são obrigados a abandonar a atividade. De outro o inchamento do Movimento dos Sem Terra. Não que todos os componentes ou militantes do MST sejam fruto do desemprego causado pelo enorme avanço tecnológico e pela inserção do Brasil na globalização de mercados. Muitos eram legítimos produtores rurais, apanhados na armadilha de juros elevados, da falta de seguro agrícola ou outra catástrofe. Porém, sem sombra de dúvida, na história pessoal de cada família acampada vamos encontrar em seu núcleo ou na tangência os temas de abertura de mercados, substituição tecnológica ou falta de escala, os quais tem em comum o desafio da competitividade para sua sobrevivência na atividade. Muitos militantes do MST tiveram origem no meio rural, porém, na busca de oportunidades melhores no meio urbano, encontraram as portas do mercado fechadas e trancadas. Hoje tentam o triste retorno às origens. Outros simplesmente buscam no campo sua última chance de inserção no mercado de trabalho.

Os efeitos na agropecuária
Os agricultores europeus estão literalmente apavorados e desesperançados, assim como seus colegas japoneses. Falta à agropecuária destes países escala para auferir competitividade. A média da propriedade européia gira em torno de 5ha, insuficientes para gerar renda para uma pessoa, quanto mais para uma família. A cada ano que passa, cresce a média de idade do agricultor europeu ou japonês, pois a juventude rural busca suas oportunidades no meio urbano, e o pai de família é hoje um agricultor de tempo parcial, que possui outra fonte de renda urbana. Eles olham com inveja para o Brasil, onde vêem a grande vantagem comparativa da extensão territorial que nos permite conseguir propriedades com escala para produzir. Escala que foi atingida nos EUA porque, apesar do PIB agrícola americano representar quase a totalidade do PIB brasileiro, apenas 3% da população economicamente ativa daquele país se dedica exclusivamente à agricultura.

A perigosa equação
O êxodo rural não faz mais sentido, porque a necessidade de competitividade no meio urbano leva à evolução tecnológica, antagônica à plena ocupação da mão de obra. O desempregado inverte o fluxo, tentando oportunidades de trabalho no meio rural. A falta de escala leva à bancarrota pequenos agricultores, a complexidade dos mercados passa a exigir cada vez mais mão de obra especializada e preparada para, não apenas produzir com baixos custos, alta produtividade e elevada qualidade, mas também para comercializar seus produtos de maneira a auferir renda suficiente para continuar na atividade. Na busca de uma solução, cobra-se do governo medidas protecionistas que ele não pode mais tomar, porque assinou acordos internacionais que o impedem de conceder subsídios à qualquer atividade produtiva.

Quo vadis?

Não será fácil encontrar a saída para esta equação perversa, que obriga o ser humano a entrar numa roda viva de competição cada vez mais selvagem, que vai deixando mortos, feridos e desempregados ao longo da caminhada, e onde a sociedade não dispõe de meios à altura para contrabalançar seus malefícios. Esperemos que, no avanço do processo de globalização, o frio mercado comece a respeitar os condicionantes sociais do crescimento econômico.