MST X MST

Décio Luiz Gazzoni
O autor é Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja.
Homepage: www.gazzoni.pop.com.br



O Movimento dos Sem Terra finalmente encontrou um adversário à sua altura: o próprio Movimento dos Sem Terra. Como? Porque o "sucesso" lhe subiu a cabeça, e passou a colocar a colher no angu alheio, ou seja, auxiliar na criação e tentar transferir apoio ao Movimento dos Sem Teto. Vamos tentar explicar.
Pesquisas de institutos independentes de opinião pública tem indicado um forte suporte da opinião pública urbana a uma Reforma Agrária no Brasil. Na nossa opinião, este suporte efetivamente existe e se deve principalmente porque:

1. As próprias lideranças ruralistas tem se posicionado favoravelmente a que haja uma reforma agrária. A discordância tem se dado em como fazer a Reforma Agrária. Foi isto que os institutos de pesquisa captaram.

2. Para o público urbano, fazer reforma agrária é desapropriar terra de não mais que 1000 latifundiários, que no imaginário possuem um milhão de hectares cada um, que não são devidamente utilizados, e que não lhe farão falta.

3. A ninguém agrada ver o sofrimento alheio, e as imagens de acampamentos de sem terra, onde se vive desconfortavelmente à beira da estrada, foram devidamente explorados pela imprensa, o que levou a maioria silenciosa a apoiar uma forma de solução do problema, representada pela Reforma Agrária.

4. A propaganda da Reforma Agrária fala claramente que, após efetuada, aumenta a disponibilidade de alimentos, diminuindo seu preço, e a fome no Brasil. Quem não deseja que isto aconteça?

5. E, finalmente, porém creio que o mais importante, a desapropriação era do patrimônio alheio. Nem de perto a Reforma Agrária afetava o habitante do meio urbano, seus parentes, amigos, conhecidos, etc. Era um problema dos outros.

E foi aí que o Movimento dos Sem Terra cometeu seu grande erro. Baseado no levantamento da opinião pública que apoiava a Reforma Agrária, o MST passou a correr riscos cada vez maiores, anunciando ações cada vez mais ousadas, aumentando o número de invasões anunciadas. Governos estaduais, temerosos de confrontos e de "afrontar" a opinião pública, relutavam em cumprir ordens judiciais de reintegração de posse. Numa ação inteligente, a estratégia do MST foi ocupar ao máximo os espaços de mídia, para manter um discurso agressivo na mesma linha que tinha lhe garantido o suporte público. Foi com este mesmo suporte que se realizou a Marcha a Brasília, e baseado no mesmo fato a CONTAG transformou o gabinete do Ministro do Planejamento em curral. Começou a romper a linha do suporte incondicional, e provocar o questionamento. Afinal, podemos desafiar tão abertamente autoridades constituídas, pode-se ultrajar a dignidade dos cargos mais elevados da Nação? A maioria silenciosa é cumpridora da lei, gosta de paz e ordem!

E foi nesta linha de fronteira que o MST começou a declarar publicamente seu suporte ao Movimento dos Sem Teto, o que começou a aumentar o questionamento da maioria silenciosa, classe média ou remediada urbana. De repente, o coitado do migrante nordestino, que após quinze anos de trabalho sofrido em São Paulo, adquiriu sua casinha, passou a fantasiar que o seu patrimônio também estava sob perigo. O dono do pequeno comércio ganhou o direito de imaginar que se formariam diversos outros movimentos: os sem terreno urbano, os sem roupa, os sem saúde, os sem alimento, e se a coisa virasse baderna poderiam vir os sem bebida, sem conta bancária e sem uma série de outras coisas.

Não cabe aqui questionar se o temor pertence ou não ao terreno do imaginário. A maioria silenciosa sempre se moveu estimulada por informações parciais, pelo desinteresse e pela busca de uma solução rápida do problema, que aplacasse a consciência nacional. E passou a temer pelo seu patrimônio. De repente aquele bordão de "reforma agrária é boa com a terra dos outros" passou a fazer sentido. Ou seja, reforma agrária sim, reforma do patrimônio urbano não. Vieram as primeiras invasões realmente organizadas de conjuntos habitacionais e de terrenos urbanos. Não que elas não existissem anteriormente. A diferença é que passaram a ser organizadas, apoiadas publicamente pelo MST e usando o bem postado sistema de propaganda cuidadosamente elaborado pelo Movimento ao longo dos anos.

A gota d'água veio com a participação de um dirigente do MST no Fórum Nacional no Rio de Janeiro, em que teria incitado os sem teto a deixarem de ser sem teto e aos sem alimento a satisfazerem suas necessidades junto aos supermercados. Tudo isto sem pagar a conta!

Prepare-se: é apenas o começo!

Ninguém é favorável à indignidade humana, ninguém quer ver um legítimo trabalhador rural, vocacionado para as lides do campo, sem terra; ninguém quer ver um irmão brasileiro sem teto ou sem comida. Como ninguém quer ver alguém exposto às péssimas condições de saúde ou de falta de segurança. Porém, ninguém quer ser ameaçado nos seus direitos, no seu espaço e no seu patrimônio. Mesmo que esta ameaça seja fantasiosa. Assim, quando o presidente da República resolve dizer que basta de baderna, com certeza vai ter o apoio da mesma maioria silenciosa. E foi aí que errou o MST, e pode ser também o fim do suporte incondicional, porque a maioria silenciosa urbana pode se identificar com produtores rurais, imaginando que a mesma ameaça paira sobre quem adquiriu legitimamente seu patrimônio, com honestidade e com décadas de suor do seu rosto.